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Este Espectáculo

MORRER A VIDA, VIVER A MORTE

 

Li pela primeira vez este texto há já muito tempo. Nunca mais o esqueci. E mesmo depois dessa primeira leitura senti necessidade de o reler, nem que fosse para melhor perceber como, de que matéria ele é feito. Como se consegue produzir esta emoção tão estranha e tão familiar?

Um «monólogo interior», dois sonhos acordados, o nascer do pensamento, a livre associação das ideias mais íntimas. Tentei, ao adaptar este texto para o palco, favorecer o efeito de falsos raccords, como se diz no cinema. Ou seja, provocar “precipitações” entre o que está IN e o que ficou OFF.

Else associa, de maneira viva e audível, várias espécies de discurso: o discurso que ouve, o discurso que diz, e os pensamentos do seu inconsciente. A organização e a gestão dessas diferentes linguagens dão ao texto de Schnitzler uma verdadeira dimensão do «económico». Essa dimensão toma tal força que se pode conjugar numa variedade de tons: da ironia ao encanto, do cómico ao trágico, provocando na heroína impulsos de energia depressa submersos por uma petrificação depressiva.

É a hybris das tragédias gregas. A hybris desta rapariga fá-la ultrapassar os limites, fá-la entrar no ilimitado, fá-la ultrapassar as normas. A Hybris é o que a faz sair de si, o que a faz ver de olhos fechados, o que a faz regressar à infância, e o que a faz desposar o infinito antes de cair… O orgulho, a arrogância, a cólera, o paroxismo do desejo, são os traços dessa desmesura que, entre os Antigos, conduz à queda.

Que queda é essa? Schnitzler não nos diz. Else morre de facto? Alguns vão pensar que sim. Outros imaginarão que ela vai acordar. Seja como for, a antiga Else já não existe. E se voltasse a acordar, seria, certamente, uma nova Else.

Christine Laurent

«Sonho e vigília misturam-se, verdade e mentira.

Em nenhum lado se está em terreno seguro.

Não sabemos nada dos outros, nada de nós mesmos.

Representamos sempre; sábio é o que sabe.»

Arthur Schnitzler,Paracelsus (1892)




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