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Este Espectáculo

para o David

 

Pegar numa pessoa e transformá-la em actor é pedir emprestado. Se não for roubar. Tira-se à vida o actor para o pôr noutro lugar. Num palco. Para o devolver à vida quando acaba a função.

O teatro é todo assim, um ofício estranho e perverso de andar a tirar as coisas dos seus lugares para as colocar noutro - o palco, também roubado à sua condição de metros quadrados de terra.

Roubam-se à vida o lugar, as pessoas, as palavras, as coisas, os sentimentos e as ideias, ou as posições, as atitudes. Faz-se outro mundo. Mas para quê?

Para os outros verem e ouvirem e terem esse prazer de reencontrar ali, em maneiras tão esquisitas, em maneiras de teatro, as coisas que a eles pertencem, as coisas que eles conhecem. O teatro é, portanto, afinal é verdade, um espelho da vida. Certo e especial espelho para que a vida nele se reconheça.

Mas para que nele se reconheça em maneiras tão esquisitas, em maneiras de teatro. Para que a vida nele se reconheça transformada. Transformada em fingimento. Ou para que a vida nele se reconheça atrás do fingimento. Atrás de outras regras, de outras caras, de outras coisas.

O teatro deve ser assim: uma coisa morta para lembrar a vida. E assim é, mesmo quando o não quer ser, mesmo quando pensa que de reminiscência da vida passa a seu retrato fiel, ou quando passa a outro pedaço de vida, com regras diferentes das que tem o quotidiano lá fora e assim obriga o público a nesse momento deixar de ser cidadão e a tornar-se actor também, sem lhe conferir a liberdade que o actor tem, e que lhe dá cidadania, de tomar a decisão de por umas horas deixar de ser gente e de escolher a maneira de o deixar, de escolher a sua companhia, o seu encenador, a sua peça, a sua maneira de representar.

O teatro é efectivamente sobretudo uma questão moral, ou de responsabilidade. Que assume no momento em que não esquece, e não esconde, e faz questão em mostrar, que as suas regras são diferentes das regras da vida a quem as pediu emprestadas para as transformar, para as tornar num espelho. E uma responsabilidade que continua, depois de exposta esta verdade indispensável da sua própria natureza, pela escolha das regiões da vida que esse espelho espelha, e pela consciência das zonas do pensamento a que a justaposição de zonas da vida que cada espectáculo espalhará há-de levar o espectador.

Tomássemos a sério o MISANTROPO e as zonas da vida a que ele nos levaria seriam a sinceridade e a hipocrisia, seriam Alceste e Filinto, ou Alceste e Celimena mais Arsinoê e Eliante, e Acasto e Clitandro e todas as outras várias provas de que desse assunto se trata.

Mas peguemos num clássico, num texto como o Misantropo, e já o texto é transformação evidente de regras da vida. Porque há já alguns séculos foi escrito, mais evidentemente ainda que qualquer texto de agora essas regras nos saltam aos olhos e o mostram como comédia, como palavras de teatro, como coisas pedidas emprestadas à vida de outros tempos, e noutros tempos já transformadas em coisa diferente, em coisa artificiosa, em coisa fingida.

E peguemos agora nele também com regras que pedimos emprestadas ao próprio teatro, mas ao teatro de tempos diferentes, aos fingimentos que aos fingimentos do tempo de o Misantropo sucederam, e estaremos ainda a falar neste espectáculo do que o teatro é: regras e mais regras, antigas e modernas de um mesmo ofício, o de roubar a vida para a ela fazermos namoro, louvor, carinho ou censura.

E voltemos a ver o Misantropo e suas fúrias de sinceridade e amor assim expostos à sua já tão evidente condição de peça do teatro, ou de coisa postiça, e reencontraremos zonas da vida ou valores que ao longo do texto se dizem com letra maiúscula, reencontraremos a "honra e o pudor", a "galanteria e a virtuosidade", "o pensamento o coração", transformados em coisa oca, ou em mais outra regra. E veremos na "sinceridade" já não coisa da bílis ou do fleuma ou mesmo do coração, mas coisa pura e simples de teatro: hipocrisia ou fingimento, o palco. Veremos neste espectáculo, espectáculo e mais nada.

Este espectáculo mais não é do que, uma vez mais, explicação de pressupostos. Porque a isso a responsabilidade nos obriga. Porque nos parece que por aqui temos ainda de recomeçar. Porque não só nós, os que roubamos à vida, temos de saber as linhas com que este tecido se cose. O teatro é coisa pública e colectiva. E muito poucas são ainda (ou já) as regras que toda a gente saiba capazes de tornar comuns estes jogos de mentiras.

 

Luis Miguel Cintra




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