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Historial

Este Espectáculo

Começámos a preparar este espectáculo em fins de Outubro de 1976 com tambores na noite em cena e preparando simultaneamente ALTA AUSTRIA, O TREINO DO CAMPEÃO ANTES DA CORRIDA antes da corrida, Karl Valentin e LONGE DE HAGONDANGE: contávamos nessa altura poder vir a estreá-lo nos primeiros meses de 1977.

Em Fevereiro, com a peça, “levantada”, tivemos de interromper os ensaios: as dificuldades de obtenção de subsídio da Secretaria de Estado da Cultura obrigaram a Companhia, depois de dois meses sem vencimento, a suspender temporariamente a produção. A montagem do espectáculo ainda não tinha começado – falta de dinheiro. Só em meados de Maio é que a situação se viria a “solucionar” provisoriamente. E a montagem começou nessa altura; e recomeçaram os ensaios.

Julgávamos poder estrear em meados de Junho, na intenção de apresentar o trabalho o mais depressa possível. Nesse sentido conjugaram-se todos os esforços para construir este cenário e guarda-roupa num mês. Dificuldades com os precários meios de iluminação de que dispomos fizeram com que tivéssemos de aguardar mais uns dias à espera de soluções. Estreamos assim no Verão um espectáculo que deveria ter estado em cena no pleno da temporada. Podemos, sem falsear, afirmar que o núcleo mais ligado à produção do espectáculo trabalhou a partir de Maio sem qualquer dia de folga, das 10 às 4 da manhã.

Orçamentada em 300 contos, a montagem virá a custar aproximadamente 170. (Há neste momento em Portugal montagens que excedem os mil contos). Os elementos deste espectáculo recebem desde Janeiro um ordenado mensal de cerca de 4.500$00.

Sabemos que estamos no limite das nossas resistências. Aceitámos trabalhar nas condições que o subsídio da SEC nos permite apenas num período limitado. Se entretanto não for encontrada outra solução, pelas entidades oficiais, não sabemos como encontrá-la pelo que a Companhia se verá por certo obrigada a suspender a sua actividade.

5/7/77

 

NOTAS:

I

Brecht: “que actor para a era científica”?, “Que escrita”?

Esta pergunta leva-o à análise dos comportamentos sociais, ao escalpe sociológico, económico, politico da personagem. O actor e a escrita revelam as contradições: a “ciência” triunfa.

Horváth não aposta na ciência. Como diz uma personagem ao morrer, ele sabe que “há vermes negros pelo ar”. (também Brecht o sabia, e a sua tentação da claridade só o prova). A escrita de Horváth deixa a análise atrás da porta e Horváth não se põe a pergunta de como revelar “este nosso mau tempo”. A sua escrita é antes do mais um acto de atenta audição.

E que ouve Horváth? Os vermes negros que andam pelo ar (Brecht: “E que cantaremos no tempo das trevas? No tempo das trevas nós cantaremos o canto das trevas”).

Resultado: Brecht, que na sua juventude intuiu tão vigorosamente as turvas nuvens do seu “mau tempo”, deixou de o ouvir no final dos anos 20 (o seu teatro passa a falar mais do que a ouvir); e quando vai ouvir o fascismo, já a música soa nos altifalantes; Horváth com ouvido de tísico, escutou a pequena música interior que desesperava os homens do seu tempo. E se Brecht se preocupa com a vanguarda (por exemplo, em Die Massnahme), Horváth auscultou as massas.

 

II

Büchner: uma revolução copérnica no discurso. Com WOYZECK temos a inteira subjectividade analisada não enquanto objecto mas (essa a revolução) enquanto sujeito. Com Büchner passamos para o outro lado da opressão: para o interior da chaga.

Isto que Büchner fez não só em WOYZECK como também em A MORTE DE DANTON, e talvez sobretudo na novela LENZ, ainda o teatro burguês o não pode aceitar. (o peso irredutível do sujeito permanece incómodo ao espectador voyeur/Büchner ignorou o imaginário burguês). Não só Büchner: Hölderlin, Lu Sun, o jovem Brecht.

A presença do sujeito é OBSCENA.

O espectador quer olhar para objectos. Não ser confrontado ao vértice do sujeito. (Beckett é assimilado quando reduzido). Brecht é recuperado na medida em que permite ao espectador que este olhe para alguém que é interior (monstros de contradições); o espectador terá esquecido as razões por que olha e olha apenas.

A presença do objecto é SERENA.

(O abc da distanciação não criticado passa a ser um discurso sobre alguém; Brecht é admitido pela burguesia no papel de médico de Woyzeck; a distanciação passa a ser “divertimento” - Kroetz fala da viúva alegre a propósito do teatro de Brecht aburguesado)

 

III

Horváth: a presença do sujeito na ausência da primeira pessoa -> AH Q: O sujeito domina a história a intersubjectividade como sujeito -> Nem Casimiro nem Carolina são protagonistas; Casimiro e Carolina são “cenas”.

“7 cenas de amor, prazer e dor neste nosso mau tempo” -> sempre entre 2 personagens; e as contradições múltiplas e em abismo. No “nosso mau tempo”. “A verdade” do “nosso mau tempo”.

 

A verdade = “o desvelar da consciência”. E aí reside o nó da peça. Como no melhor cinema.

CASIMIRO E CAROLINA não é uma análise, uma exposição.

CASIMIRO E CAROLINA é um movimento interno, um processo.

Quem organiza o decorrer da peça? Dir-seia que Carolina. (Vamos atrás da sua história, para os sítios onde ela vai). E Casimiro. (Só existem os personagens que se cruzam com eles). No entanto, não são eles que organizam a sua própria história. Eles estão no espaço de outros. A Feira não é construída por eles. E não será o desemprego de Carolina, e Carolina que começa a história da peça? E não serão os sucessivos encontros entre os dois que a conduzirão? Mas quem os decide? A não ser os “silêncios” que entre eles se geram? E quem os provocou? Talvez o “nosso mau tempo”, “a verdade” “do nosso mau tempo”. À verdade do nosso mau tempo só chegamos com os silêncios entre os personagens. Entre os sujeitos.

Horváth escolheu falar do nosso mau tempo. E só lhe conhecemos dois pares: Marivaux, Tckekov. (A intersubjectividade é a única objectividade). Horváth=Tchekov via Büchner?

 

IV

Quando escreve UM FILHO DO NOSSO TEMPO, Horváth, anti-nazi, fala do nazismo na primeira pessoa – é um soldado nazi que fala. Horváth olha a opressão por dentro. O ponto de vista do sujeito.

O teatro que a burguesia permite irradia o ponto de vista do sujeito. Assim nasce a farsa e o drama psicológico. (HEDDA GABLER é o contrário de WOYZECK). Todo o teatro que se vai opor ao discurso burguês vai colocar esse problema - do sujeito Baal-Kragler no jovem Brecht aos mercenários de Angola que falam eles próprios em Yesterday's News do Joint Stock. O teatro burguês apresenta o seu objecto com uma mecânica (idealista-positivista) da apresentação - muitas vezes o teatro materialista assimila o drama burguês tal como o marxismo corrente assimila e acaba por se reduzir ao positivismo. É preciso reencontrar nas práticas artísticas as superações e as rupturas do imaginário burguês.

(v. Romantismo Alemão, Alemanha e Rússia dos anos 20, Joyce, Lu Sun).

 

V.

Horváth (...) constata que as suas peças são mal representadas. E aponta dois vícios: o naturalismo e a sátira -mecanismos da normalização burguesa em relação ao”sujeito obsceno” ao “quotidiano incerto”, aos “vermes negros que andam pelo ar”. Um discurso teatral positivista tende a omitir o negro, o excessivo, o que faz córar. Tende a recuperar o sujeito transformando-o em objecto datado e devidamente afastado (“retro”).

 

Em CASIMIRO E CAROLINA:

– a estrutura da peça ao sabor da inter-subjectividade é recuperada como estrutura narrativa.

– os personagens anónimos podem ser recuperados como caricaturas (ou, num discurso de esquerda, como exemplificação da alienação: redução igualmente comum a WOYZECK, em que o lado criador e visionário do personagem sucumbe perante um discurso para-cientifico e “racional”; mas não há razão real que não tenha que saber da desrazão)

– o local da acção - a Festa da Cerveja - pode ser reduzido, por um lado, ao seu sentido estrito, por outro ao seu sentido alegórico: o sentido material - local excessivo, local excepcional, local sem geografia, local colocado sobre outro, local isolado de uma cidade em contradição - é então reduzido (Munique 1931 não é Lisboa 1500 de O AUTO DA FEIRA).

Esta normalização passa por omitir o problema do sujeito, do ponto de vista.

Qualquer encenação de CASIMIRO E CAROLINA deve partir do monólogo interior de Antoine Roquentin numa tarde de Domingo, no Havre, na náusea. (ou, em nós, da leitura repetida de O DIA CINZENTO).

 

VI

Quem reduziu WOYZECK à narração;

Quem reduziu CASIMIRO E CAROLINA à narração:

recalca o silêncio ou as trevas; esquece que estes são o contrário da estrutura narrativa (assim como da estrutura dramática).

Horváth fala dos Vermes Negros. Do impasse das suas personagens.

 

VII

O teatro será o vórtice das personagens. (Abaixo os conflitistas da vontade!)

O cenário: paisagem ou memória (recusa do aparelho de exibição camuflado que é pré ou pós Brechtiano, mas de diferentes formas camuflado).

O cenário de CASIMIRO E CAROLINA: do lado de dentro da cabeça de Carolina. Um cenário onde o fascismo já cresce. Cresce dentro das personagens. Com a desproporção do inconsciente. Entre as rosas haverá vermes negros. (v. Cantina Operária de Karl Voelker: a questão da nova objectividade - a nova objectividade é a extrema subjectividade; v. Sobre o Lado Esquerdo, de Carlos de Oliveira).

 

VIII

Se de O MISANTROPO até PEQUENOS BURGUESES, recreámos as regras do trabalho teatral (repondo o espaço, dinamitando o texto, recriando o actor, revendo o palco à italiana), com ah q reverteu-se a frontalidade (quem é mais frontal que a personagem?). Com TAMBORES NA NOITE, ALTA AUSTRIA, O TREINO CAMPEÃO e CASIMIRO E CAROLINA, convidamos quem vê a habitar o mesmo imaginário, a colaborar com as personagens, a descer a si (O desvelar do espectador).

 

IX

Quem diz que o cenário de tambores na noite é cinematográfico, esquece o enquadramento. Pôr um cenário à cinema e recusar o enquadramento é recolocar o ponto de vista como questão inter-subjectiva. Em CASIMIRO E CAROLINA trata-se de desenquadrar cada um dos locais de acção. (Se há pintura em O DIA CINZENTO, não é na mesma função de desenquadrar o literário? v. ainda o jornalismo em Tretiakov e o “cinema” em Carlos de Oliveira.). A coexistência dos locais em TAMBORES NA NOITE e CASIMIRO E CAROLINA é o contrário de um cenário cubista. Não é ver um objecto de vários pontos de vista - é ver os vários pontos de vista que os objectos estabelecem entre si.

 

X

Se o cenário é o infernal céu dos pobres, o sonho da abundância, os fatos nesse cenário deverão contrariá-lo, partindo da extrema objectividade (os fatos são trabalhados sobre fatos reais, encontrados pormenor a pormenor, e com total preocupação de fidelidade histórica, enquanto tudo o mais a não tem). Da tensão entre o guarda-roupa e o cenário deve nascer um vazio, um “silêncio” como nas conversas entre as personagens, ou como o desnível entre o “jargão culto” e o seu pensamento. (cf. Kroetz sobre Horváth)

 

XI

O actor: encontrar o silêncio, não se trata de o preencher com preparação de motivação interna. Em Horváth qualquer psicologismo mata a dinâmica, mata a ironia. O silêncio só se sentirá como vazio se a acção da peça for conduzida pelo encadeado do discurso, interrompido por esses mesmos silêncios.

Não se trata de o actor se identificar. Trata-se de o actor se entender com a personagem, não a rejeitando. O actor e a personagem deveriam usar o mesmo termo “nós” que Pratolini ao falar dos seus rapazes e raparigas de Florença. (leitura de O BAIRRO para ensaios.) Só com um tratamento que não seja acusação ou louvor poderá revelar-se neste “desvelar das consciências” a vitalidade das personagens, ou seja o irredutível. (Tal como Tchekov se desconsolava ao ver as suas personagens tratadas por Stanislawski, qualquer identificação iria normalizar esta vitalidade, ou seja, rejeitar o sujeito e a ironia, exactamente como um Tchekov). É neste irredutível que se desenha o optimismo.

 

XII

“Começava a compreender que a vida da maior parte dos homens era uma série de lutas contra todo o género de obstáculos que acabavam num enterro barato”.

Siegfried Sasson

 

XIII

Um teatro que parte de uma base local pode ser traduzido?

Se é verdade que Munique em 1931 é utilizado em Horváth para um entendimento dos comportamentos, poderão esses comportamentos ser entendidos sem Munique nem 1931? Das duas, uma: ou se reconstitui tudo e se dissolve a peça numa breve serenata “retro”, ou se prolongam as imagens de Horváth reencontrando-as no nosso também mau tempo. Que perdemos então?

Assim, as músicas da Europa Central e as canções de bebida, substituímo-las pela actual música de consumo (os anos 50). A taberna de Wagner reencontramo-la sob a forma de esplanada. E se a Oberammergan lhe chamamos impropriamente Monte Calvário ou a Altötting Fonte Seca, é porque supomos que quer um, quer outro, deveriam soar como sítios recorrentes, mais do que como locais específicos. Clarificar o texto pelas nossas recorrências será entendê-lo ou deduzi-lo?

 

XIV

Há 13 anos houve uma revolução. (Para nós foi há 3/2 e meio). E dela que ficou? Os irmãos e primos dos que morreram passeiam entre o triste e o ansioso pelas grandes feiras capitalistas (“populares” chamam-lhes). O destino abate-se sobre eles; quem fez a história esquece-se agora e namora, desempregado, abandonado, nos bancos do jardim.

Em nós foi há 3 anos. Como estamos? Comment ça va? Pergunta-nos Jean-Luc Godard. Passaram-se coisas dentro de nós. “Essa pequena burguesia passou por uma transformação interior”. (W.Reich). Se o discurso normalizado do “político” omite este movimento (que é a História), que responder perante ele? CASIMIRO E CAROLINA lemo-lo e escolhemo-lo em Agosto de 1975)

 

XV

Que faz o produtor de sentidos quando sabe:

1º que o futuro não é a Deus que pertence;

2º que por muito que faça não é ele que vai inflectir o maior de todos os sentidos – a História;

3º que corre no mundo uma pequena música que o discurso dominante relega e afunda?

– Ouve a música como quem ouve os grilos.

– E faz a sua orquestra tocar o canto dos grilos.

Diz-se que um sábio chinês tanto quis imitar o som de um grilo que este, furioso, pegou no pincel e escreveu um poema.

 

E que cantaremos

no tempo das trevas?

No tempo das trevas

nós cantaremos

o canto das trevas.

B. Brecht

 

E que canto é o das trevas?




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