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Historial

Este Espectáculo

Numa feira a sociedade encontra-se consigo. As pessoas todas, diferentes como são e de classes diferentes, encontram-se, trocam coisas, vêem-se, compram, vendem, os mortais fazem contratos. É um local privilegiado de confronto da sociedade consigo própria e de cumplicidade consigo própria.

A sociedade mede-se a si própria sem espectadores. Todos culpados. A feira é também, por isso mesmo, uma festa, a festa da própria vida em comum. Mas se quisermos fazer batota e nos tornarmos em espectadores da feira, a feira torna-se num retrato, ou talvez melhor, numa radiografia da sociedade. E até, na própria variedade do que se vende e compra, do que se troca, encontraremos um catálogo de necessidades e desejos muito revelador. Gil Vicente, num primeiro grau, faz neste Auto a festa da vida (e bem a propósito, pois não é o auto um auto de natal?) e da vida em comum. Destas zonas nasce o meu fascínio antigo pelas feiras e a obcessão antiga de um dia encenar este “nosso” Auto, de, como fez Gil Vicente, dar a feira em espectáculo. Tanto mais que o teatro, como a feira, é outro local privilegiado de encontro da sociedade consigo própria. Pôr uma feira no teatro não é espreitar a feira pelo buraco da fechadura como, por exemplo, no cinema aconteceria. É multiplicar o fenómeno teatro na sua dimensão política. Foi assim, ingenuamente, que começámos a gostar do AUTO DA FEIRA. Percebemos depois que o gosto pela política é em Gil Vicente muito menos simples do que isto e que, a este processo de espelhar no teatro os negócios públicos, outro importantíssimo e mais complicado se acrescentava. Porque a feira desta “moralidade” não é só uma feira como as outras como bem o fazem notar as personagens simpáticas do auto, os populares: “nunca vi tal feira”. Nesta feira só há duas tendas: a do bem e a do mal, a dos vícios e a das virtudes. Esta feira é uma feira especial, é uma feira moral. É assim que a feira, esta feira do auto, deixa de ser um local de cumplicidades de toda a sociedade e passa a ser um tribunal. Os espectadores do auto não só se vêem ao espelho enquanto sociedade como se vêem enquanto sociedade transformar a feira “em seus tratos”, o seu convívio, em tribunal, transformar “os contratos dos mortais” em julgamento. A sociedade aqui dá espectáculo, espectáculo de si própria, e mais, das suas próprias regras, da própria cumplicidade que criou. E o público deste tribunal, deste teatro, membro da mesma sociedade, é cúmplice se não dos crimes, concerteza das regras por que se regem os contratos dos mortais.

O AUTO DA FEIRA, ao tornar-se em tribunal sem deixar de ser feira, torna-se numa reflexão sobre as próprias regras sociais. E, mais complicado ainda, uma reflexão sobre as regras sociais no que elas têm de relação com Deus. O desconcerto do mundo está na sua própria organização moral, está na sua transformação em feira. Esta feira do auto, dividida em dois como a cabeça suja da Igreja, com duas tendas, a do mal e a do bem, cada qual com regras diferentes (numa se compra a dinheiro, noutra se troca por santa vida) só os próprios vendedores, personagens de alegoria, a entendem e um único comprador, personagem de alegoria também (Roma). E por absurdo se prova como tal organização do acesso a Deus é desconcerto. Roma tem moeda com que podia comprar vícios mas quer virtudes que só pode comprar se não tiver moeda, e nesse caso seria boa, como diz o diabo (as boas pessoas são todas pobres a eito) e nesse caso teria santa vida que trocaria por virtudes. Mas se tivesse santa vida não precisava de ir comprar virtudes porque já as tinha. A feira moral, a visão do mundo dividido em bem e mal é um absurdo. E não a entende mais nenhuma personagem, os mortais não a entendem. As verdadeiras necessidades e desejos do Homem (“uma pucarinha pera mel”, “anéis de latão”, “burel do pardo da lã meirinha”, “pares de sapatos”, “pão”, “casar bem”, “a graça e a alegria”) uns se vendem nas feiras mundanas, que diz o Tempo (com razão?) que “poucos e poucos hão-de lograr” (a história diz que sim, sempre poucos muito tiveram) e outras (“a graça e a alegria”) não se feiram, a Virgem as dá de graça. O Auto é na sua vertiginosa construção um auto sobre a política no seu sentido mais nobre e mais vasto, sobre a moral por que se regem os mortais. E se percebermos como ele parte de um acontecimento imediato, moral e político a todos os níveis, o Saque de Roma, sede da cristandade, por tropas de um Rei Católico, Carlos V, num conflito em que directa ou indirectamente estava envolvida toda a Europa, e se pensarmos ainda que o Auto foi escrito para ser apresentado a um alto governante – ao Rei, e à corte, cúmplices ainda por cima de Carlos V e também do Papa, percebemos até que ponto ia a inteligência política de Gil Vicente e mais, a sua capacidade de reflexão ou de distanciação do mundo.

Mais: esta vertiginosa inteligência em tudo concorda com o próprio processo teatral.

É através de um acto cúmplice por natureza, um espectáculo de teatro, que se julga ou pelo menos se mede as regras da própria cumplicidade social. A sociedade ri-se, troça de si, porque se trata de teatro. Neste auto o teatro assume-se em toda a sua dimensão de instrumento de reflexão mas esgota-se ao mesmo tempo na sua função de diversão. O actor é, de facto, bobo da corte, mais nada. Mas ninguém vê tão longe como o bobo. E ninguém sofre mais.

E nós? Porque ainda andamos hoje às voltas com o auto?

Aprendi um pouco mais do que pensava, ao encená-lo. Abandonei tantas ideias antigas, mais superficiais: a vontade de transformar todo o espaço do nosso teatro em feira de muitas tendas, a vontade de incluir tractores, música de emigrantes, majorettes, gado, electrodomésticos, etc. Desisti da festa. Percebi que esta feira é diferente, mais triste, mais inteligente. Como sempre, andei às voltas com uma questão, aqui talvez mais premente que nunca, a grande questão do teatro: essa, a cumplicidade. É possível agora ainda fazer viver um auto destes feito de mil cumplicidades políticas quinhentistas? Esta organização moral da sociedade, pelo menos, já que o Saque vai bem longe, ainda terá cumplicidades em torno de si? Oxalá que não. E se não, por outro lado, por certo será falhado o espectáculo. Na ideia do espaço, nas ideias do guarda-roupa, em todas as pequenas e tantas vezes gratuitas brincadeiras do próprio jogo dos actores, tentámos as cumplicidades de que fomos capazes com o que nos resta de maniqueísmo, com a própria representação tradicional das figuras, com as imagens antigas que ainda temos na cabeça e com a sua subversão por imagens modernas. Mas a nossa cumplicidade verdadeira com este auto, felizmente (graças a Deus), creio que não pode ser já essa. Outras duas cumplicidades fomos descobrindo e oxalá essas não falhem, a cumplicidade de uma terceira via para “os contratos morais” e a cumplicidade, sempre, do jogo, do prazer gratuito (como a graça e a alegria) do teatro e que não só, pelos vistos nos dá a Virgem. Se a via tradicional (reaccionária?), medieval, franciscana, de Gil Vicente, o seu louvor dos simples, a sua sabedoria, e tolerância e amor pelo imperfeito género humano, por este segundo mundo em que vivemos, “todo imperfeito”, acaba por encontrar-se com as mais progressistas e novas ideias luteranas, gostaríamos nós que o nosso amor pela vida verdadeira em toda a sua fragilidade, desprazer, insegurança, brevidade, fraqueza, falsidade, temeridade, aborrecimento, cansaço, imperfeição, se encontrasse com o de Gil Vicente seja ou não, como ele diz nesse deslumbrante sermão aos frades de Santarém para que se conheçam “as perfeições da glória do segre primeiro”, o mundo de Deus, contrário ao nosso. E gostaríamos de ser cúmplices de Gil Vicente (e oxalá do público) na óbvia recusa do mundo dos negócios, da política pequena, da autoridade, da eficiência, dos profissionais, no louvor do prazer e da alegria neste “sigro em fundo” em que “todos somos negligentes”. Cúmplices também gostaríamos de ser da liberdade com que ele fazia os autos a el-Rei, com que sagrado e profano e culto e popular conviviam, da total falta de medo de misturar géneros, tons, registos, do desprezo pela unidade, pelo equilíbrio, pelo rigor, do prazer de experimentar, da clareza e limpidez.

Acrescentámos dentro dessa liberdade uma primeira parte do espectáculo ao auto. Para que se sentissem as “pacíficas concordanças” da afinal tão bonacheirona harmonia e nitidez da segunda parte, do auto. E para que se sentisse como a pureza da organização moral do mundo que Gil Vicente propõe é utópica e nasce de um desconcerto e uma violência a que se opõe e que os textos da época testemunham. É também uma imagem de Feira a que na primeira parte apresentamos. Feira apocalíptica, muito mais interior, muito mais moderna talvez, muito mais nossa, feita de farrapos de textos, frases sobrepostas. A Babilónia em que também nós nos sentimos, mesmo sem Saque de Roma.

 

Luis Miguel Cintra




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