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Este Espectáculo

Este espectáculo é um espectáculo diferente. Não e um espectáculo como os outros que nesta companhia se costumam fazer. Não sei sequer se é um espectáculo de teatro. Mas sei que é um espectáculo de actores, feito pelos actores, e que quase com certeza é um espectáculo sobre os actores. E tal como nos espectáculos que temos vindo a fazer, tal como no PÚBLICO, tal como no CÉU DE PAPEL, foi para continuarmos a falar desse assunto inesgotável, do teatro e da nossa maneira de estar com o público que fizemos este espectáculo. Por mais temas que o teatro aborde, por mais que dê a pensar, por mais lugares, histórias e personagens que represente, o que fica sempre do teatro é o que mais o aproxima do espectáculo em geral: gente que se mostra a outra gente, um jogo de espelhos, uma elaboração de encontros. O que fica do teatro é acima de tudo aquele estar em frente dos outros, oferecer-se, mostrar-se, sejam os pretextos que para isso se inventem mais ou menos elaborados, mais ou menos civilizados. O que fica do teatro é sempre o actor. É o prazer que temos na sua exibição, na sua transfiguração, na sua capacidade de nos espelhar, de nos deformar, de nos engrandecer ou de nos diminuir. O teatro talvez não esteja, no fundo, tão longe do circo. O actor talvez não seja tão diferente do palhaço.

Para pensarmos nisso, para descobrirmos se a dramaturgia do texto a que estamos habituados não será sempre vencida pela dramaturgia do actor, se o trabalho do actor sobre si próprio, parecido ao do palhaço, não antecede o trabalho sobre todas as peças, sobre todas as ficções, resolvemos fazer esta experiência, esta nossa SALADA (que é confusão, misturada, mas também é qualquer coisa que se faça numa sala para outros verem, parecida com “noitada” e com “pochade”). Resolvemos confrontar actores com textos que não são textos de teatro. Com os textos mais simples, mais esquemáticos, mais livres, mais disponíveis a todas as encarnações e variações, mais patetas: textos de circo, os textos dos números tradicionais dos palhaços o mais próximo possível da sua forma original, antes da acústica dos circos e da sua progressiva internacionalização os ter reduzido quase só a pantomima, acrobática ou malabarismo.

Pensámos que o encontro de actores habituados a criar sentido, procurar na especificidade e na inteligência de um determinado texto a construção de uma situação, da sua personagem e da sua relação com os outros com textos onde os conflitos se reduzem à depuração dos mais básicos conflitos humanos, onde as situações não têm outro lugar senão o lugar da própria apresentação do espectáculo, onde todos os personagens são o Homem em geral ou são o Zé Ninguém, havia de alguma maneira de obrigar o actor a confrontar-se consigo, a redescobrir o mais antigo e o mais importante dos seus prazeres, o prazer de brincar, a sintetizar numa bofetada, num beijo, num tiro, todas as nuances de relações humanas que se habituou a dissecar e acima de tudo a redescobrir a base do seu “métier”, a capacidade de se expôr, o prazer de se construir, mudar a sua voz, andar de outra maneira, usar os olhos, o corpo que tem, aquilo que já aprendeu da vida, até deixar de ser e ser só uma personagem. E oferecer-se assim, sem defesas, corajosamente despido de todos os alibis.

Não quisemos falar dos palhaços. Nem imitar os palhaços. Há nos palhaços, como em todas as formas de espectáculo, convenções específicas, técnicas tradicionais, anos e anos e gerações de elaboração de uma poética própria que admiramos demais para que nos passasse pela cabeça substitui-los, copiá-los. Fomos aprender dos palhaços. Fomos pedir-lhes emprestado um dos seus instrumentos de trabalho (talvez o que mais tenda a ser esquecido, os seus textos) para fazer um trabalho de actores.

Também o processo de trabalho foi diferente. Não houve aqui encenador. Tal como não há encenador no circo. O jogo é demasiado directo e acima de tudo demasiadamente de cada um consigo mesmo e de cada um com o outro com quem joga para que tenha razão de ser mais uma visão de fora, qualquer “ex-machina”. Este espectáculo é diferente também porque é a primeira experiência de trabalho colectivo de encenação da companhia. Foi da maneira mais natural, do que cada um foi trazendo e dando ao trabalho dos outros que foi surgindo o espectáculo a partir de uma mecânica prévia, afinal completamente arbitrária, de distribuição dos papéis e de ligação dos números. Também os figurinos, em que há obviamente referências à maneira tradicional de se vestirem os palhaços, foram construídos a brincar, juntando peças de roupa que podiam ter pertencido a outras pessoas mais sérias e que aqui misturámos em salada com o prazer do disparate a partir da composição física que cada actor foi fazendo. O cenário é outra brincadeira: portas à toa, um palco para brincar como o cenário de CÉU DE PAPEL era um palco para o mesmo jogo a sério.

Este espectáculo fala do teatro como os outros. Mas mais do que tudo é uma brincadeira. Se queremos ser actores a sério não nos podemos levar a sério demais.

 

Luis Miguel Cintra




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