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Historial

Este Espectáculo

"Forçado a percorrer a estrada onde entrei sem saber, como dela sairei sem o querer, junquei-a de tantas flores quanto a minha alegria me deixou; e ainda digo minha alegria sem saber se ela é mais minha do que o resto, nem sequer quem é este eu de que me ocupo." Esta é a imagem da vida em que eu me reconheço. Quase no fim de uma comédia, de coração partido num momento de engano, ainda com a pouca idade de "uns mesquinhos trinta anos que nunca mais terei", é assim que o Fígaro de Beaumarchais já deita contas a uma vida que foi vivendo demasiado e demasiado de perto para, mesmo num momento de desengano, a querer deixar. Uma estrada que passei o tempo a juncar de flores mas de que um dia serei forçado a sair. Passamos a vida em querelas, como também diz o Fígaro, meu filósofo de cabeceira, "constantemente debaixo do cabresto, como os desgraçados cavalos da sirga dos rios, que mesmo quando páram, não descansam nunca, ainda que deixem de andar". Mas que o rio seja de flores.

Sonhámos há talvez uns trinta anos fazer esta peça. Um grupo dirigido pelo Jorge Silva MeIo e empurrado pelo professor de Literatura Francesa, na Faculdade de Letras, professor Castex, começou a ensaiá-la em francês. Eram ensaios no Liceu Charles Lepierre. Desistimos, já não me lembro porquê. É verdade, cheguei a dizer o monólogo do Fígaro e a medir o quarto com a Suzana. Reencontrei-a com alegria há pouco tempo, passados tantos anos, vive em Florença. Em 1971 o Jorge ofereceu-me o primeiro esboço de uma tradução que tinha feito para quando um dia se fizesse o espectáculo. Era um projecto de sempre e para sempre da primeira Cornucópia que sempre ficou adiado. Em 1984 o meu Carlos do filme NINGUÉM DUAS VEZEStambém do Jorge, debate-se entre aceitar ou não o convite de um Teatro Nacional para interpretar o Fígaro que na sua companhia independente em decadência não poderá fazer. Em 1985, interpretava eu o papel de um jovem maestro que vinha salvar uma estreia falhada das NOZZE de Mozart no filme VERTIGES de Christine Laurent que assim conheci e que passou a ser companheira para outros bons trabalhos. Em 1988 o Dr. João de Freitas Branco e o Dr. Serra Formigal dão-me a oportunidade de, com a Cristina Reis, encenarmos a ópera. E foi uma das grandes alegrias desta vida de teatro, com um novo grande companheiro de entusiasmos, o maestro João Paulo Santos, e cantores que guardei no coração. E no José Fardilha já tinha um primeiro Fígaro para sempre. A peça foi ficando para mais tarde, quando viesse a propósito, quando houvesse elenco certo, quando houvesse tradução. Passou a idade do Fígaro, passou a idade do Conde, ou das várias Condessas sonhadas, e das primeiras Suzanas que seguiram por outros caminhos. E em 1998, durante a preparação dos espectáculos dos 25 anos de companhia, dei-me conta, por um lado, de que o tempo passa mesmo e, por outro, que, talvez por acaso, tinha comigo, talvez por um breve instante, uma companhia de actores que me enchia as medidas e por quem tenho um desmedido afecto. Entre velhos e novos, o elenco certo para O CASAMENTO"Assim vai o mundo; trabalhamos, planeamos, compomos de um lado; e a fortuna termina do outro", diz também o meu filósofo, "esse estouvado do Fígaro". "E aqueloutro cego a quem chamam amor..." "Não posso adiar o amor para outro século / não posso", diz o poeta. "Vergonha, vai passear! quero rir e chorar ao mesmo tempo; não se sente duas vezes o que eu estou a viver". E disse cá para mim, como disse a mãe do Fígaro: "ah! meus filhos, o que eu vou amar!".

A história deste espectáculo é esta: a do encontro de um velho sonho pessoal com a descoberta de, pelo menos, um novo Fígaro, uma nova Suzana, um novo Conde e uma Condessa e um Querubim. Um projecto egoísta, já se sabe, com a cumplicidade de uma cara metade que já desde sempre me faz cenários e me veste os actores e não sei por que mágicas maneiras me dá corpo às alegrias, e de várias outras muito queridas companhias de há já muito longa data. A que juntei outras surpresas mais recentes: um jeito de dar luz à cena que também faz bem ao coração e um novo músico. E uma equipa renovada. Se a vida é isto, agradeço a Deus.

A realização deste espectáculo não se insere em nenhuma linha de programação, não segue nenhuma estratégia de público, não vem a propósito de nada, está fora de moda, é provavelmente inútil, é um gesto gratuito. Mas persegue a alegria. E uma prática de liberdade que o teatro na nossa terra ainda pode ser. E disso quer dar testemunho. À caça de cumplicidades contra a grande solidão. Não tem outro discurso.

O CASAMENTO DE FÍGARO é uma peça antiga. Que nos importa já, para além da curiosidade, a crítica aos abusos sociais do fim do século XVIII ou a pobre luta do criado contra tão frágil patrão? O que na LOUCA JORNADA me comove até às lágrimas é o prazer do jogo puro, da inteligência e da imaginação, da desordem e da alegria. É o excesso. O CASAMENTO DE FÍGARO é uma comédia (e até nisso está hoje fora de tom) mas não é uma comédia como as outras. Nem sequer o final, ambíguo por excelência, é uma reconciliação, nem aquilo que de facto se passa é a momentânea confusão de uma ordem social. As regras do próprio teatro são maneiras de brincar. É uma comédia sim, como as de Shakespeare, porque celebra a primavera. Mas mais perto da vida pequenina de cada zé ninguém. A cena não se passa em qualquer mítica Itália e não se celebra nenhum poder. O palácio de Águas-Frescas é um palco qualquer, numa falsa Andaluzia que só quer dizer lugar onde há calor que baste para que reine o desejo. O que se passa, mais do que a derrota ou a vitória de qualquer ordem, é o puro prazer da desordem e do uso livre da razão e da acção, é a afirmação da vida de uma maneira nova, ao alcance de todos, à margem das regras, no próprio prazer de as subverter, no gosto da liberdade, na invenção por cada um da sua própria vida, das suas acções, dos seus prazeres, dos seus afectos. Num momento de crise social, na véspera de uma revolução, alguém se divertiu assim, a inventar-se na arte da contra-cena.

Comove-me a imagem do Homem que a peça me reflecte, em tudo contrária à dos dias que vivemos e tão generosa como o seu próprio herói. E a esperança na História que a atravessa. O Teatro, mais que nenhuma outra arte, pode ter este poder: fazer-nos conviver com gente de outro tempo. Fazer-nos passar por essa experiência. Gosto de pôr em cena textos antigos. Este espectáculo também quer isso. É pouco? Confrontar um novo público com este texto de outro século, com um teatro com outras regras que, de outro modo, talvez nunca conhecesse. Dar-nos e a estes actores a experiência de passarem por estes jogos, de porem o pensamento a brincar, de agirem com palavras, de contracenarem. De reinventarmos estes seres humanos diferentes. Puros de alegria. Foi este um dos prazeres desde o primeiro dia: ter à minha frente, agora, em corpos de gente, as personagens do Fígaro. E se, na concepção do espectáculo, passámos por uma breve tentação de não deixar fugir o que na peça existe de realismo quotidiano, de atenção aos pequenos gestos e aos locais da vida de todos os dias do tempo em que foi escrita que a peça também contém na sua capacidade de tudo integrar, o que venceu foi, como tantas vezes vai sendo gosto nosso, um cenário que é só uma arena ou o fundo de um quadro em que se faz em permanente movimento o retrato de um grupo. Um local para o encontro, afinal, com gente dos nossos dias: pessoas actores transformados pelas suas personagens, pelo confronto com um texto que, neste caso felizmente, não é do nosso tempo mas que é para todo o sempre. Por amor do presente. E foi por isso também que não quisémos o palco à italiana. Para em todos os sentidos os termos mais perto de nós. Meus amigos, não se vive bem sem se conhecer um Fígaro, uma Suzana, um Conde, uma Condessa, um Querubim e toda a tropa fandanga que tão bem os rodeia. Aqui os têm. Convido-vos a partilhar dessa alegria. Este espectáculo, afinal como todos os que fazemos não é mais um. Mas é, mais do que nunca, o resultado de grandes amores.

 

Luis Miguel Cintra




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