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Historial

Este Espectáculo

Últimos momentos antes da catástrofe

Se ler os contos de Tchekov é uma experiência estranha, que nos faz conhecer personagens quase sempre prestes a compreenderem qualquer coisa de inteligível, de palpável sobre a sua própria existência – ler o seu teatro é uma coisa bastante diferente. Mesmo se muitas das personagens das suas peças vêm directamente dos contos.

De facto, ler as suas peças de teatro exige de nós duas espécies diferentes de atenção, quase opostas: uma consiste em seguir o sentido comum das coisas, enquanto que a outra implica uma atenção mais afastada da lógica, mais desligada, mais “flutuante”, como no estado do sonho ou do semi-adormecimento.

É esta atenção particular que permite captar os ecos, os silêncios, os reflexos e as reverberações do sentido, que permite captar os lapsos, aperceber as lágrimas através do riso e sentir o desespero no interior do gracejo.

Sem essa atenção, como é que se poderiam reconhecer as aspirações mais secretas, os desejos mais extravagantes escondidos nas palavras ou no mutismo de cada personagem?

Pensava eu que encenar O Ginjal iria implicar, simultaneamente, estes dois tipos de atenção. O que ignorava então era até que ponto a escrita dramática de Tchekov está concebida como uma partitura: ruídos, silêncios, palavras, pensamentos, estão organizados segundo uma ordem quase invisível, o que – quando o ritmo é justo, e apenas nesta condição – revela então um destino cuja precisão por vezes cruel, começa subitamente a ecoar de modo perturbante na memória secreta de cada espectador.

Isso faz-me pensar naquela didascália do início do Segundo Acto, onde Tchekov nos diz: Ao longe, uma fila de postes telegráficos e longe, muito longe, na linha do horizonte, entrevê-se uma grande cidade, que só é possível distinguir quando o tempo está bom e claro.

Nunca mais esquecerei o que Antoine Vitez nos dizia, durante as representações de A GAIVOTA, para a qual eu fazia os cenários e os figurinos: - Abrir uma porta, é abrir uma porta, é também, talvez, fazer entrar o Infinito, ou a Morte, ainda que essa porta dê simplesmente para a escada.

Encenar O Ginjal, para mim, é também encontrar bruscamente, sem o ter pressentido, o cinema, mais precisamente, o trabalho de montagem de uma ficção. Tchekhov é o mestre da expansão e da contracção do tempo. A sua escrita opera uma espécie de montagem, com um jogo de velocidades contrariadas, de efeitos de grandes planos. Faz-nos passar do microscópico, do infinitesimal, para amplitudes cósmicas, subitamente, sem prevenir.

Da densidade à leveza. Da indiferença à crueldade.

 

Qual é a Acção? Estranha acção esta, sem uma verdadeira acção:

 

Acto I: O Ginjal está ameaçado de ser vendido.

Acto II: O Ginjal vai ser vendido.

Acto III: O Ginjal é vendido.

Acto IV: O Ginjal foi vendido.

 

De que fala?

 

De como se libertar da infância.

Da falta, de estar em falta.

De faltar. Da privação.

Das palavras que se pronunciam e que não são as boas.

Das palavras para não dizer nada, das palavras a torto e a direito.

Das frases ditas bem demais e das palavras desajeitadas.

Tudo está sempre “ao lado”. Cedo demais. Ou tarde demais.

Com ternura. Com ferocidade.

Com emoção. Com indiferença.

E todos aqueles objectos partidos ou perdidos.

Dos noivados frustrados.

Da propriedade vendida.

Das árvores que se abatem.

Dos sonhos ilusórios de um futuro radioso, enquanto se esquece em casa o fiel representante da ordem antiga.

De um mundo que está condenado a desaparecer. O vento da História começa a soprar.

 

Há dois anos, quando o Luis Miguel me convidou pela quinta vez para encenar um espectáculo na Cornucópia, tinha-lhe proposto inventar uma espécie de trabalho de atelier à volta das peças de Tchekov. Depois de as ter relido todas, percebi que O Ginjal era não só a minha preferida mas também a que melhor se prestaria a uma divisão em sequências e depois a um tratamento adequado a cada uma dessas sequências. (Foi assim que as sequências de Epikhodov e algumas de Firss foram cortadas na versão proposta.)

Sonhava ainda com um espectáculo que mostrasse o trabalho dos ensaios, com tudo o que isso implica de repetições de textos e de situações, de tentativas. Imaginava este espectáculo como um pintor elabora os seus esboços antes da execução final do projecto; alguns álbuns de Delacroix têm esboços, por vezes coloridos com aguadas, que isolam precisamente certos detalhes da composição geral.

Mas a peça foi mais forte do que as minhas elucubrações preparatórias.

Arrastou-me, arrastou-nos, como uma grande vaga, para uma execução mais acabada que o previsto, e, finalmente, mais simples. Da ideia de “work in progress” ficaram apenas alguns vestígios e um certo tratamento do espaço.

O telão do Segundo Acto, executado pela Cristina, por si só, é uma metáfora do espectáculo.

O palco, cuja porta do fundo se abre para a carpintaria, a companhia da Cornucópia, constituem para mim uma espécie de Ginjal desde que com eles convivo. Este espaço, a comunidade que o habita, com as suas alegrias e desgostos, puderam fazer nascer este trabalho.

Conheço há muito tempo todos os actores que interpretam O GINJAL. Fiz desde o início esta distribuição. Insistia para que a Rita Durão representasse o papel de Ranevskaia; mesmo se habitualmente o papel é interpretado por uma mulher mais madura, eu queria tentar este desafio.

É em total cumplicidade com este grupo de actores que levantámos âncora para esta aventura.

Percebi com isto que, também eu, envelheci. E ainda bem, porque sem esta passagem obrigatória para a maturidade, creio que nunca teria ousado lançar-me neste projecto.

Christine Laurent

Trad. LLBarreto




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