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Historial

Este Espectáculo

É mais fácil ver quando passamos a velhos: sentimos que vivemos pouco tempo porque a vida de cada um não chega para conter a vida toda. Isto para quem gosta de viver, claro, e encontra interesse nalguma coisa fora de si próprio. O que, aliás, nos nossos dias já não é tão raro como isso. Mas será justo pedir a quem tem a vida toda pela frente (é pelo menos o mais provável, apesar de que as leis naturais do mundo com o evidente desastre ecológico dos nossos dias não garantem coisa nenhuma), será justo pedir-lhe que se ponha já a pensar na morte? 1.ª estação: é a primeira coisa que se há-de entender: o pensamento sobre o tempo, a sua relação entre o tempo do mundo e o tempo de cada um. A morte é a referência indispensável. E pôr isto em causa com argumentos como: “Tristezas, Deus me livre!” é óbvio disparate. Perguntar se será justo é uma pergunta demagógica que contribui para a habitual irresponsabilidade e desperdício em que a organização do mundo presa ao dinheiro, nos meteu. E a próxima paragem, depois de nomeado o Tempo? Se ninguém nos impedir vamos perguntar que fazemos, ou que fizemos dele, não? Como vivemos a parte que nos coube? É, por sinal o que diz a jovem Klara, a protagonista de Música, na primeira fala da peça: “O quê? Já são sete? - Há cinco minutos ainda eram seis! Já passou uma hora desde que aqui estou! Meu Deus omnipotente, no que eu me tornei! Ai, meu Deus omnipotente, que vai ser de mim?!” O nosso pregador Vieira, no seu sermão das cinzas, mais fazendo teatro que verdadeira doutrina, mas com a sua conhecida subtileza, aconselhava uns minutos diários dedicados a perguntar: “Quanto tenho vivido? Como vivi? Quanto posso viver? Como é bem que viva?” E acabava com o monumental MEMENTO HOMO, em latim, pois, que quanto mais séculos, mais autoridade. (Lembra-te, Homem!) De quê? De que “és pó e ao pó hás-de voltar.”

Não sei se sigo o conselho de Vieira com a mesma aplicação e gosto próprio, mas a pergunta vai-nos bem. 3.ª estação: a vida? Mas o que é a vida? É uma palavra. Uma palavra que substitui tudo, afinal? Tudo o que existe. E lá estamos nós a meter-nos na nossa própria confusão: que quer dizer existir? Mas com estas palavras, indispensáveis como base do pensamento, já nós estamos a herdar, (e lá vem a ideia de tempo), o que outros imaginaram antes de nós. É a Cultura. E lá vamos nós meter-nos numa prisão, que é o pensamento preso pelo tempo passado em hábitos de vida, maneiras de estar, sentimentos que não inventámos, formas gramaticais que não são livres. Não há pensamento sem palavras? Os animais não falam. E por isso não pensam? Foi o Homem quem inventou a palavra vida como a palavra pensar. Mas é isso o saber? Nós que podemos fazer de nosso, todos e cada um, que nos leve à alegria, mesmo que conscientes de que as palavras não nos libertam, e nos prendem ao já inventado? Integram-nos no passado, mas fazem-nos comunicar com os outros, dão-nos mil trabalhos para conseguirmos conter a água do mar em tão pequeno vaso? Podemos justamente não usar as palavras nem a memória, usar os sentidos, a imaginação. E há a ilusão de não estarmos sós.

E isto não é mentira, é a verdade pela Arte. Mas à menor dificuldade logo recorremos a Deus, como Klara, a um Deus omnipotente! E podemos descobrir que amamos os outros e que isso provoca transformações nos nossos corpos que não dominamos. E que nos unem aos outros. E que desse encontro irracional, desse momento, pode, entre homem e mulher, dar-se origem a outro ser humano, nascido da alegria.

Um retrato da vida, a nossa peça? Temos, pelo menos à partida, uma peça que se propõe retratar, através da história de Klara, episódios revoltantes e exemplares da vida de uma burguesia do fim do século XIX, completamente irresponsável e prisioneira da tradição moralista, que sem dar por isso vive automaticamente, de forma absurda, longe da consciência de cada um. Pouco a pouco, logo no primeiro diálogo percebemos que o assunto também tem a ver com a própria Arte, uma das formas humanas de responder ao tempo. Klara queria ser cantora. Mas logo o tão artificioso quanto, por isso mesmo, divertido primeiro diálogo começa a nomear todos os grandes temas da História da Civilização: a propriedade, a posse, a inveja, a liberdade, a luta do homem contra o homem, o dinheiro. Logo se percebe que, para além da historieta de Klara, os chocantes episódios comuns da vida da burguesia, alguma coisa nos atira para o campo dos símbolos e das metáforas. Estamos perto de algum Strindberg mas longe de Ibsen e também de Tchekov. Eu sei, A Gaivota também está cheia de metáforas mas o teatro daqueles 3 outros grandes fundadores da dramaturgia moderna, descendentes do naturalismo, os da 4ª parede, critica uma sociedade em que é o próprio sistema quem integra a sua arte, são valores que coincidem com os ideais burgueses na sua excelência, e nesse tabuleiro surge a reivindicação de um estilo próprio de cada artista. O teatro de Wedekind, pelo contrário, são gestos desesperados de paixão, loucura, fraqueza, risco, de vontade de sair de qualquer redoma como a que os outros se inventaram. Quer estar em sangue no meio da batalha. Sacrificando a sua aura. Sem preconceitos. E ora escreve de uma maneira ora doutra, sempre valente, humilde, à procura de entender, de se entender a si próprio, com vontade presente em cada novo texto, de, conhecer e dar a conhecer a vida. Sem ponto de vista maior que o de um espelho de bolso.

Comove-me neste teatro a sua falta de unidade, uma espécie de desorientação estilística que logo se afirma, quando, depois de um quadro, o primeiro, em que sentimos um exagero melodramático do drama pessoal que, aliás, não resistimos a sublinhar com uma espécie de declamação sobre música, e que música lhe emprestámos!, a abertura da Lohengrin de Wagner e uma daquelas valsas de Joseph Strauss, que estou de acordo em chamar geniais, passamos a uma espécie de circo. O circo de uma prisão. Foi o desequilíbrio entre o assunto de que se fala e a música, que não só me seduziu como me convenceu que com Música de Wedekind se podia fazer ainda mais um espectáculo de louvor ao teatro que convocasse a vida inteira. Foi como se convocássemos “um fogo que arde sem se ver”, e descobri coisas sem nome, essas que, quando dominamos, chamamos Arte, e a Poesia e, o que mais prazer dá, aquela que até pode incluir palavras, ou a arte de as voltar a inventar, a Poesia, mas é simplesmente Pintura, ou Música, sobretudo Música, porque a música é, de entre todas artes, a que consegue ter nela a verdade do Tempo. E é em si mesma passagem do tempo construída por cada um que a faz, é aquela parte da realidade que só existe porque a gente a inventou.

E é assim, seguindo estes passos, ou avançando pelos 4 quadros deste retrato de costumes, como Wedekind lhe chama, que descubro nesta aparentemente peça menor, (mas que a 2 grandes filósofos encantou e talvez não por acaso: Theodor Adorno e Walter Benjamin,) visto que eram filósofos, e que o autor considerava a mais violenta de todas as suas, que foi censurada, proibida, etc., descubro nela uma coisa parecida no teatro com as famosas maçãs de Cézanne na pintura, pintor que morreu no ano em que esta peça se escrevia, um momento importantíssimo da evolução da arte no princípio do século XX, quando com as várias explosões revolucionárias (a revolução espartaquista, a soviética) se deram transformações vitais para o mundo na arte, quando os quadros passaram a conter mais do que o retrato da vida, a subjectividade do olhar, o próprio retrato do pintor. A história da pequena Klara, que queria ser cantora, história horrorosa, como se alguém quisesse pôr as coisas ainda mais feias, não faz só um retrato de costumes, dá a ouvir o sentimento de repulsa pela história que alguém conta e todos podem imaginar verdadeira por conter episódios típicos da vida de uma burguesia, assustada e presa por um moralismo caduco. Mas a peça cria descontinuidades, mudanças de registo, desde o realismo académico do 3º quadro, com cenas admiráveis de diálogos que, como em Ibsen, vão dar ao tema do dinheiro, como cenas que são de puro circo absurdo como o 2º quadro, na prisão. Trata-se de facto de uma ruptura na posição do artista perante a vida. A questão jurídica da legalização do aborto que é referida na peça, só é tratada por Wedekind enquanto exemplo e prolongamento de um outro tema monstruoso: o da anulação da liberdade individual.

Adorno também se entusiasmou “A sua dramaturgia é aventurosa, como a prosa de Dostoievsky, a qualidade lúdica na acção não é artística mas acrobática, ele é escandalosamente ousado, toca em todos os sentimentos e penetra em todos os instintos, grita, ergue cartazes, faz as coisas em grande. Não é nenhum psicólogo, nunca vê como é que as pessoas se tornaram no que são mas apenas como são, e até isso com um olho apenas. Estava à frente do seu tempo de uma maneira espantosa porque estava muito atrás dele. Com o seu primeiro som, o naturalismo apupou-se a si próprio. E quando cresceu, cresceu para uma riqueza de concretude material, com a sua vida impúdica e receptiva, uma riqueza que não existia na Alemanha havia já muito tempo. E assim procurou o amor. Tinha o problema nas pontas dos dedos.”

É que aqueles que são tidos pelos grandes inovadores do teatro desse tempo, Tchekov, Ibsen, Strindberg, criam cada um deles um estilo que acaba por petrificar-se nesse gosto comum, são génios que trabalharam para um estilo pessoal. Com Wedekind não parece haver estilo, é justamente dessa constante inquietude, mais implacável na sua moral que a ideologia de qualquer qualquer dos outros, mais sincera, mais livre, e uma capacidade de amar muito mais intensa, exposta, vulnerável. Foi através da surpresa do grupo de actores tão inteligentes e sensíveis que temos vindo a reunir em torno da companhia, que começámos a entender a peça. E quando me lancei a ler a outra peça do autor que cronologicamente se lhe segue, CENSURA, escrita ao mesmo tempo e a propósito das dificuldades de Música mas completamente diferente. Caíram-me os queixos, como se costuma dizer. Aí Wedekind põe-se a si próprio em cena com outra personagem decalcada da sua mulher. E os diálogos são deliciosos duetos de artistas sobre arte e a vida, entendendo por vida o Amor, à boa maneira cristã de S. João, e isto afirmado explicitamente. As dificuldades de entendimento mútuo são as dificuldades de, no contexto social em que vivem, se amarem tão livre e lealmente como a sua Moral lhes exige. São o contrário do mundo das personagens de Música, só hipocrisia, mentira, desconfiança, traição. Até a Klara da Rita Cabaço ou o Joseph (São José?) do Dinis Gomes são personagens ambíguas. E um palco as revela. No João Reixa e na Nídia encontrei a frescura capaz de libertar esses diálogos de Censura do ambiente mesquinho que os rodeia. São os duendes de Lorca? São gnomos. São Adão e Eva? É como se sempre tivessem vivido nesse lugar de felicidade, o teatro, quando se povoa de afectos que nada pode destruir, e onde só podem existir. E dei por mim, já velho, a conversar nos ensaios sobre o que é isso de amor, como o encenador de Depois do Ensaio de Bergman.

Esse lugar que é o palco, é o lugar mental da Arte, é o sítio onde ainda é possível estar para perceber. Que passemos por este mundo com as vendas nos olhos que nos querem pôr, isso não. Foi lá que aprendi e conheci quase tudo o que de melhor a vida tem: o amor, claro mas se com ele vem tudo o que a vida tem de melhor. Acreditamos que tudo passa porque o tempo tudo leva. Mesmo que tudo esqueça e já nem todos os actores deste elenco saibam quem é Gerald Moore, Schwartzkopf e Dieskau, quando obrigo actores neste caos político de fim do mundo em que estamos a viver a ouvi-los saudar a música, a repetir, a propósito de uma peça de Wedekind, as palavras da celebérrima canção de Schubert: “Ó arte delicada, em quantas horas cinzentas, e quantas vezes, com nobre gesto, ó arte, me afagaste o coração e me levaste à esperança de um outro mundo melhor!”, foram artistas quem ao lembrá-los nos corpos de outros artistas, me permitiram reviver, contra o horror do pesadelo que a peça “Música” significa, a ilusão de uma felicidade que inventei e que me fez perceber muita coisa. Por exemplo, que a ária da Suzana das Bodas, é por onde se deve começar a perceber o que é amar. Talvez por isso no retrato tão violento de Wedekind ou na amarga brincadeira de A Hora do Amor de Horváth, eu tenha tentado com toda a força e rodeado de pessoas de quem gosto muito, dizer às que nos vierem ver: a vida é ou a mais bela invenção do homem ou é mesmo criação de Deus.

Luis Miguel Cintra




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